quarta-feira, 2 de setembro de 2009

UMA INSTITUIÇÃO QUADRICENTENÁRIA


Senhora da Saúde, flor mimosa
Na vertente da serra, entre os abrolhos:
A tua branca ermida prende os olhos,
Os corações tu prendes, Mãe formosa!

Lá em cima és estrela radiosa,
És nossa guia neste mar de escolhas,
E ouves as queixas que almas sem refolhos
Vão contar à tua alma carinhosa.

Salva-te a cotovia do alto monte,
Seus gorjeios te envia o rouxinol,
Louvores reza-te a vizinha fonte...

Das nuvens da manhã sobre o lençol,
Beija-te o sol surgindo no horizonte
E tu brilhas mais linda do que o sol.


Barbosa Campos (cerca de 1880)

      
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A «Confradia da Saúde»

Originalmente dizia-se «confradia» e não confraria. Ainda hoje se fala de confrades. A Confraria não era «de Nossa Senhora da Saúde», mas simplesmente «da Saúde»: Confradia da Saúde. Isto é, os confrades desta irmandade uniam esforços para cuidar da sua saúde. Claro que tinham uma padroeira, mas eles é que eram os confrades[1].
Veja-se como era assim neste registo de óbito de 1636:

Oliveira que terá sido mandada plantar pelo Beato D. Fr. Bartolomeu dos Mártires ainda ao tempo em que a actual igreja paroquial de Monte de Fralães era a Ermida de S. Nicolau

A 29 de Março se faleceu Isabel Gonçalves, de Urjães, viúva. Está enterrada dentro, em S. Pedro. Teve dois padres, além de quatro que foram da Confradia da Saúde. Era pobre; dizem deixou oito missas, a obrada foi limitada; disse as seis missas que faltavam. João Gonçalves, filho, morador em Lisboa, mandou fazer um ofício de dez padres. Pedro de Freitas.

Actual imagem de Nossa Senhora da Saúde no seu retábulo

A palavra «confradia» ainda ocorre nos Estatutos de 1800.
Quando nasceu esta irmandade?
A iniciativa da sua erecção deve-se com todas as probabilidades à Casa de Fralães. A propósito de confrarias, escreve-se na Enciclopédia Verbo, depois de se ter mostrado como, durante séculos, elas surgiram predominantemente ligada a grupos sociais bem delimitados: «A nobreza tinha a de N.ª Sra. da Saúde». Parece assim que só ao nobre tronco dos Correias e Lacerdas de Fralães cabia instituí-la. Entre os vários argumentos abonadores deste alvitre, sobressai uma disposição do capítulo do mordomo dos estatutos de 1650, de que se conserva cópia e que adiante transcreveremos na íntegra:

Ordenamos que para melhor governo haja na porta travessa de Nossa Senhora e na grade do arco três chaves (...) A terceira chave estará sem­pre nas casas de Fralães para quando os senhores dela quiserem ir fazer oração.

No mesmo sentido aponta o facto de ainda nos anos trinta do nosso século ser pago foro aos herdeiros dos antigos senhores de Fralães pelo terreiro da capela em que esta confraria nasceu[2].
Tentemos ver um pouco do que se passava na Casa de Fralães por altura da fundação desta irmandade.
Cristóvão Correia de Lacerda, casado em 20/7/1587, era de certo o senhor desta honra ao virar do século e há-de tê-lo sido por mais alguns dez ou vinte anos. Das suas irmãs, uma professou em Guimarães [3] e outra em Estremoz. Dos dois filhos que teve, o mais novo fez-se dominicano, adoptando o sonante nome de Frei Bartolomeu dos Mártires, e o mais velho, António Correia de Lacerda, sucedeu ao pai.
Antigo cruzeiro da Confraria. Até há uns 40 anos, erguia-se a uns quinze metros da igreja de Monte de Fralães, com a inscrição voltada para ela.

Casado com certeza muito jovem, António Correia de Lacerda baptiou uma filha logo em 1605 e o primeiro filho varão e futuro herdeiro em 15 de Agosto de 1607. Três dos seus oito filhos morreram de tenra idade[4]. Entre os irmãos da sua esposa, D. Ana Figueira de Mendanha, além de um clérigo secular, que foi cónego e vigário geral em Braga, houve dois clérigos regulares e quatro freiras.
Não significará nada que o herdeiro de António Correia de Lacerda, Cristóvão Correia Pereira, tenha sido baptizado no dia da Assunção, dia em que sempre se celebrou e celebra a festa de Nossa Senhora da Saúde em Monte de Fralães. Contudo, se a Confraria tivesse sido fundada antes de 1610, ficava logo explicada a inexistência da provisão que lhe deveria ter dado vigência jurídica, pois só depois desta data se tornou obrigatória tal formalidade (isto mesmo parece implícito no documento apresentado adiante, ao afirmar-se que a Confraria seria da «Jurisdição Real desde a sua origem por se não mostrar a primordial licença do Snr. Ordinário pa se erigir»). Também na família da esposa deste último Correia de Lacerda, D. Catarina de Andrade, houve alguns clérigos: dois seculares, um dos quais foi desembargador da Relação de Braga, e um regular, beneditino.
Se acrescentarmos que na parentela próxima dos senhores desta casa havia pelo menos mais um dominicano, um cónego regular e duas freiras, poderemos fazer uma ideia de quanto ela era frequentada por religiosos e religiosas durante a primeira metade do século XVII [5].
Inscrição do Cruzeiro

Regressemos às considerações que vínhamos desenvolvendo sobre a Confraria. Uma vez que ela não foi erecta na igreja paroquial, precisou de uma ermida ou capela. Ora já em 1564 se assinala na freguesia uma «ermida de S. Nicolau», onde foram lidos, pelo abade Jácome Dias, os decretos do Concílio Tridentino, «porquanto ao presente não dizia missa ainda na nova igreja». A «nova igreja» era uma antiquíssima igreja que ele trasladara para o terreiro e que até 1564 se encontrou no alto do Monte d’Assaia. Terá sido então a antiga ermida de S. Nicolau que acolheu a nova devoção à Virgem Maria como Senhora da Saúde.


[1] Este trabalho foi redigido na década de 90 do séc. XX; por isso, quando se fala do século passado ou do último século, deve entender-se séc. XIX.
[2] Das contas da confraria, em 1939, constam 54$50 para pagamento do «foro do terreiro».
[3] O padre Jácome Dias lançou o seguinte registo da partida da primeira destas irmãs para a vida religiosa:
«Aos 8 do mês de Outubro de 1581, entrou a senhora D. Maria, filha do senhor António Pereira e da senhora D. Violante, no mosteiro das freiras de Guimarães. Foram com ela a senhora D. Violante e seus filhos Cristóvão Pereira, Diogo Correia, Manuel de Lacerda, e Estêvão Ferreira e outra muita gente. Nosso Senhor a faça santa».

[4] Se é certa a recordação que temos de uma leitura do primeiro volume dos Registos Paroquiais de Viatodos, a mortalidade infantil, à altura, tinha proporções de flagelo e poderá ter tornado mais urgente e oportuna a devoção à Senhora da Saúde.
[5] A nossa principal fonte para o assunto aqui tratado foi o Nobiliário de Famílias de Portugal, de Felgueiras Gaio, tomo 12, pp. 19 e seguintes.
Camilo Castelo Branco, no Senhor do Paço de Ninães, introduz como personagem de primeiro plano Leonor Correia de Lacerda, que, romanticamente, é destruída pela paixão. A história é situada temporalmente entre 1576 e 1622. Conquanto esta Correia de Lacerda seja apenas parente próxima dos donatários da Honra e Couto de Fralães, numa das páginas de um dos capítulos finais pode ler-se:
Assim se dobaram dois anos, em que os frades, por vezes, foram a Fralães entender-se com os herdeiros das casas de Reboredo e Pouve, por falecimento de Leonor. Ao senhor da honra de Fralães desconvinha que a viúva de João Esteves desatasse a alma das pias amarras dos franciscanos.

A "Confradia da Saúde" (cont.)

Monte de Fralães foi paroquiada, entre 1594 e Outubro de 1634, pelo sacerdote Tomé da Guarda[1]; há-de pois ter sido sob os seus cuidados pastorais que a Confraria surgiu. Como mais abaixo se mostrará, na última destas duas datas, ela tinha já as suas tradições.
Mas prestemos agora um pouco de atenção ao cruzeiro.
Este cruzeiro era o cruzeiro da Confraria e só há pouco mais que uma dúzia de anos ascendeu a paroquial, abandonando a localização primitiva onde permanecera três séculos e meio. Erguia-se frente à antiga capela, abaixo do muro que divide o adro do terreiro. Na peanha que o sustenta pode ler-se: «Pedro Antunes o mandou fazer 1625»[2]. Sem nenhuma dúvida portanto, nesta data já funcionava a irmandade.
Em 1634, veio paroquiar a freguesia o sacerdote Pedro de Freitas. A sua intervenção no precioso primeiro volume dos Registos Paroquiais foi por demais evidente e oportuna. De lamentar que se não conservasse por inteiro o fruto da dedicação que lhe votou[3]. Saída da sua pena, vejamos esta lista de «missas perpétuas que se dirão na ermida da Senhora da Saúde»:

(...) Gonçalves, de Vila Pouca, Minhotães, tem obrigação de mandar dizer duas missas cada ano pela alma de Maria Martins, daí, para o que lhes deixou umas herdades.
António Martins, de Requião, Minhotães, tem obrigação de mandar dizer cada ano por Maria Fernandes, daí, para o que lhe deixou herdade, uma missa.
Maria Gonçalves, mulher de António Martins, de Eira Grande, de Viatodos, tem obrigação de mandar dizer cada ano uma missa pela alma de Isabel Martins, de Campesinhos, para o que lhe deixou a leira das Carizes, que é herdade.
Bartolomeu Martins e sua mulher, Maria Martins, do Monte, desta freguesia de S. Pedro, deixaram certas herdades à
Senhora da Saúde com a obrigação de os oficiais da Senhora lhes mandarem dizer cada ano, na sua capela, cinco missas pelas suas almas, como consta do papel que disso fizeram e posse que delas tomaram.
Pêro Martins, de Luscos, me disse que a Maria Martins acima lhe deixara uma leira que tinha no campo da Porta, dele, Pêro Martins, com obrigação de lhe amentar cada ano por sua alma; ele me dá meio alqueire de milho por ela e se foi conselhar com os Apóstolos, e lhe disseram que nem obrigação tinha de amentar, por a leira não ser capaz disso, e, por o ter por timorato e me aquietar sobre o que me disse, não dei carta ao visitador.
Tem a
Senhora da Saúde para fábrica quatro alqueires de pão meado, pelo alqueire do Paço, da bouça que está na Chã; ao presente a trazem Bartolomeu Martins, de Luscos, e Gonçalo Martins, do Xisto.

Esta citação carece de algumas observações. Seja a primeira a de que, tendo a Senhora da Saúde «oficiais», isto é, mesários, existia confraria; vê-se também que a sua implantação já se estendia até Minhotães e Viatodos; com algumas probabilidades, deduz-se que à data não seria muito antiga, pois os devotos da Senhora da Saúde citados parecem ser do conhecimento dos eventuais leitores do apontamento do padre Pedro de Freitas. A palavra «apóstolos» que se aparece no penúltimo item equivale a Jesuítas.
Rebuscando nos registos paroquiais de Monte de Fralães e de Viatodos a data de falecimento dos homens e mulheres mencionados na lista, apenas conseguimos identificar o registo de óbito de Bartolomeu Martins, do «Monte», que é de 1632. Os registos paroquiais de Viatodos começam em 1616, mas não encontrámos lá nenhuma Isabel Martins que fosse de Campesinhos, conquanto aparecesse uma homónima, sem indicação do lugar e solteira, falecida em 1618. Não é impossível que corresponda à senhora referenciada no item três.
Um registo de 14/11/1634 informa-nos que nessa data:

Se faleceu Isabel Fernandes, mulher de António Martins, do Rio; dizem que fez manda verbal, em que deixou lhe fizessem um ofício de dez padres e vinte missas onde quiserem, e obradassem no presente conforme ao costume. Mas no dia do enterro se fez um ofício em que assistiram dezassete padres, e se enterrou na ermida de Nossa Senhora da Saúde (...)

Iluminura dos Estatutos de 1800

Este enterro poderá parecer intrigante para quem pense que o aumento que esta «ermida» sofreu no século XVIII deva ter sido para norte; nesse caso, a ermida seiscentista assentaria toda ou em penedo ou a dois ou três palmos dele, o que impossibilitaria qualquer enterro. De facto, o aumento foi no sentido do altar-mor.

De 1650 a 1700

Os Estatutos de 1800, que constituem a terceira reforma, dão-nos conta de que a primeira ocorrera em 1650, «por se desencaminharem os da sua instituição». E de crer que, actualmente como em 1800, se conserve a versão de 1650, em Braga, e talvez ainda uma cópia, total ou parcial, em Lisboa. Como já o dissemos atrás, entre os papéis desta confraria guarda-se um documento que contém «o teor do capítulo dos mesmos estatutos relativo ao mordomo da capela». Ei-lo:

Que o mordomo da freguesia tenha em sua casa uma caixa, que para isso fica feita, em que estará a cruz e a coroa de prata de Nossa Senhora, frontais, toalhas e todo o mais fato que tiver de seu uso e serviço, que se entregará por inventário e pelo mesmo dará conta ao novo mordomo que pelos anos vindouros lhe suceder. E quando as cortinas, sobrecéus, toalhas dos altares houverem de ser lavadas ou consertadas, o mordomo o mandará fazer com toda a diligência; com a mesma consertará os altares, pondo-lhes os frontais, segundo (sic) o primeiro com rosas e cheiros, varrendo a igreja as mais vezes que puder ser, e nos dias da Senhora encomendar às mulheres solteiras tragam juncos e espadanas e se enfeitará a igreja o mais que comodamente possa ser e se porá à Senhora a sua coroa de prata, e à noite se tornará a recolher porque, como é de preço, a não furtem. Ordenamos que para melhor governo haja na porta travessa de Nossa Senhora e na grade do arco três chaves, uma que tenha o reverendo abade, outra o mordomo da freguesia, para que todas as vezes que for necessário ir varrer a dita ermida, acender a lâmpada, enfeitar os altares e mais coisas necessárias, o possa fazer com liberdade, e o reverendo abade com a mesma, indo à ermida todas as vezes que lhe parecer. A terceira chave estará sempre nas casas de Fralães, para quando os senhores dela quiserem ir fazer oração.

Diz-se-nos aqui que a Confraria possuía uma cruz de prata (que era de procissão) e uma coroa, também de prata, para a imagem. Estes dois objectos foram roubados pelos invasores napoleónicos. Aí por 1830, uma D. Maria Umbelina de Ruivães, mas também de Fralães, pois as casas andavam juntas, ofereceu nova cruz e nova coroa de prata. A existência de uma coroa que foi utilizada durante tantos anos leva-nos a crer que a imagem se terá mantido a mesma, ao longo de tal período. A imagem que hoje se venera deve vir apenas da primeira década do séc. XX.
Na redacção da versão dos estatutos de 1650, entrou certamente a pena do reverendo Pedro de Freitas, que paroquiava Monte de Fralães desde 1634 e aí continuou pelo menos até 1662. Na Casa de Fralães, seriam ainda vivas várias das pessoas que referenciámos atrás.

Do meio século seguinte, não é muito o que sabemos sobre a Confraria; vejamos porém o que é possível reunir.
Em todos os inventários do século XIX (1801, 1831, 1873), há referência a uma obrigação pela qual:

Paga Manuel Araújo e seu filho, e hoje João Pereira, do lugar da Venda, freguesia de Viatodos, dez medidas de pão meado, impostas no campo do Viso, sito nos Regadios, por escritura de 31 de Março de 1651, feita em Barcelos pelo tabelião António da Silva Borges.

Presentemente não se conserva qualquer documento a atestar esta antiga aquisição nem o seu fundamento.
Quando os Estatutos de 1800 foram a Braga para aprovação, lá exigiram alguns esclarecimentos. Num deles, a determinada altura, fala-se dos:

(...) Estatutos da primeira reforma apensos, nos quais se mostra serem da jurisdição ordinária, confirmados pelo Ilustríssimo Cabido, sede vacante, no ano de 1655.

Regressando aos inventários, tomamos conhecimento de que também:

Paga Francisco Pereira, da freguesia de Sequiade, lugar de S. Pedro de Sá, três medidas de pão meado, impostas na bouça rias Flores e na casa em que vive, por escritura feita em Barcelos pelo tabelião Paulo Garcia de Carvalho.

Desta escritura, de 1684, conserva-se traslado, feito com certeza na mesma data em que se lavrou o original. O sumário traz os seguintes dizeres:

Venda que fizeram João Rodrigues e sua mulher de freguesia de S. edro de Sá, aos oficiais de Nossa Senhora da Saúde, deste Couto de Fralães.

Vejamos um pouco mais do documento, aliás o mais antigo que a Confraria possui no seu «arquivo»:

Saibam quantos este público instrumento de carta de pura venda, firme e valiosa deste dia para todo o sempre, ou como em direito mais válido seja, virem que, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil seiscentos e oitenta e quatro, aos vinte e dois dias do mês de Julho, neste Couto e Honra de Fralães, na Devesa da Granja que está junto à estrada, distrito deste couto, aonde eu tabelião vim, aí em minha presença e das testemunhas adiante nomeadas e assinadas, apareceram presentes e outorgantes João Rodrigues e sua mulher, Domingas Fernandes, moradores na freguesia de S. Pedro de Sá, do termo da vila de Barcelos, pessoas conhecidas das testemunhas e elas de mim tabelião, e por eles ambos juntos e cada um in solidum foi dito, em minha presença e das pessoas que estavam contratadas com os oficiais de Nossa Senhora da Saúde, deste dito couto, sita na freguesia de S. Pedro do Monte, que servem o presente ano, de lhe venderem (...) três medidas de pão, meado de milho-alvo e centeio, pão bom, limpo, (...) as quais impõem na bouça das Flores (...) e assim mais na casa em que vivem, que compraram a Ana de Sá, (...) é em preço e quantia de nove mil réis, forros, livres e isentos de sisa (...) a qual quantia receberam eles vendedores de Domingos Carvalho, tesoureiro da dita confraria (...)
Página inicial da escritura de 1684

A 30 de Março de 1685, foi novamente solicitada a presença do tabe­lião, agora em S. Pedro de Sá e em companhia do escrivão da Confraria, o pároco de Viatodos, padre Alves Dias da Cruz, a fim de «dar posse» das medidas declaradas na escritura do ano anterior.
Ao menos no século passado, esta casa — os livros referem-se repetidamente à «casa da Confraria» — era tida como de pouco interesse económico. Assim, em 1853, consegue-se «autorização do Excelentíssimo Conselho de Distrito» para proceder à sua venda. Por falta de compra­dores, ainda em 1859 não se tinha efectuado negócio. Em 1873 e anos seguintes, o tesoureiro continua a registar a recepção das três medidas; as mesmas medidas hão-de estar incluídas nos 225,849 litros de pão meado que a Confraria arrecadava nos primeiros anos de 1900.

Em 1684, teria já falecido o senhor de Fralães baptizado no dia da Assunção de 1607, Cristóvão Correia de Lacerda. Falecido sem deixar herdeiro, deu-se então a chamada «intrusão» na casa de um seu parente um pouco afastado.

[1] Quer-nos parecer que este sacerdote teria alguma relação familiar com D. Ana Figueira de Mendanha, esposa de António Correia de Lacerda, uma vez que F. Gaio, ao falar da mãe desta senhora, não só menciona alguns nomes com o apelido «da Guarda», mas até aí ocorre mais que uma vez o nome Tomé (tomo 24, p. 42).
[2] Num documento da segunda metade do século XVII, aparece em Viatodos, no casal do Monte (que ainda não era «da Feira»), um Manuel Antunes, com certeza aparentado com este Pedro Antunes.
[3] O padre Pedro de Freitas antepôs um índice a este livro. Depois dos habituais «títulos» dos baptizados, dos defuntos, dos casados e confirmados, vem o título «dos bens móveis desta igreja», «o dos costumes desta igreja», «o das missas de obrigação desta igreja» e «o dos estatutos da confraria do Sobsino». Lamentavelmente, estes estatutos já aí não constam. Constam porém vários termos de eleição de um mordomo que seria muito provavelmente o juiz da Sub sinu.

De 1700 a 1739

Por cerca de 1700, o autor da Corografia Portuguesa, a quem a casa «antiga» de Fralães tanto maravilhou, à Confraria de Nossa Senhora da Saúde não só não dedica uma palavra como, referindo-se à sua capela, dá-a implicitamente como património dos Correias e Lacerdas, o que não correspondia de todo à verdade.
Para os anos que medeiam entre 1700 e 1739, dispomos de uma só fonte de informação, o livro dos Capítulos de S. Pedro do Monte de Fralães. É pelos «capítulos» dos visitadores que vamos obtendo, aqui e além, alguma notícia sobre a Confraria. Durante este tempo, são sete os capítulos que a ela aludem. Vejamos este, bem interessante, de 6/5/1709:

Outrossim o Reverendo Pároco não consinta que a imagem de Nossa Senhora se vista à moda dos romeiros, com cristas e penachos e outras indecências contra a modéstia que da Virgem Santíssima nos inculcam as suas pinturas antigas, pois disto nasce o facilitar-se as mulheres nas demasias nos trajes e decotados e outrossim mais coisas escandalosas com que vemos igrejas ainda e na ocasião de receber os Sacramentos.
Capítulo de 1709 sobre a ornamentação da imagem da Padroeira

Esta menção das «cristas e penachos» com que se adornava a imagem da Senhora remete-nos para a ornamentação florida e olorosa que o capítulo do mordomo ordenava em 1650.
Um pouco mais adiante, o visitador, entre outras determinações, deixa a seguinte:

E as contas se façam com entrega dentro de um mês depois de passada a festa da Senhora, advertindo os oficiais que o que sobejar das despesas se dê a juros, a pessoas seguras e com as fianças necessárias, cominação de pagarem de suas bolsas as perdas e danos que por essa causa tiver a Confraria.

Em Setembro do mesmo ano, perante a dificuldade em reunir os clérigos para os ofícios pelos irmãos defuntos — clérigos a quem, de acordo com o estatuto, só era atribuída a esmola de quatro vinténs — o visitador manda reformar tal estatuto, pois «é notória a elevação que há no presente tempo nas esmolas das missas e ofícios pela carestia de tudo». No final do capítulo, porém, até porque já havia reconhecido que achara «com bastantes rendimentos» «a Irmandade da capela de Nossa Senhora da Saúde», corrige a sua determinação, que deixa do seguinte teor: «aliás, que tragam clérigos por sua conta para satisfazerem os ofícios dos defuntos».
Desta data é o primeiro alvitre, que não vingou, de tornar a capela da Confraria a igreja paroquial; só quase duzentos anos depois tal foi avante.
Em 1721, capitulou o visitador:

Fui informado de que nesta freguesia se costumava fazer, em dia de Nossa Senhora da Purificação, a procissão das candeias com a Bênção das velas da Confraria em louvor do grande mistério que a Igreja Católica costuma celebrar em obséquio da Mãe de Deus, e que há anos a esta parte, por negligência dos oficiais da dita Confraria se não fez a dita procissão, o que é estranho muito (...)

Manda-se então que o costume seja reposto e que sejam condenados em pena de «cinco tostões» os mesários que de futuro se recusarem.
Em visita de 1727, ordena-se aos «Oficiais de Nossa Senhora da Saúde» que «ponham uma corda, aliás, cadeia no sino, porque a não tem, e uma manga de damasco para a cruz».
O livro dos capítulos em que nos vimos a apoiar começa em 1707, altura em que era pároco o padre Aleixo Gomes de Abreu, que se veio a finar em 1736. Há-de ter ocorrido no seu tempo a segunda reforma dos estatutos. De facto, só faz sentido a queixa do visitador de 1709 em relação à insuficiência da esmola para os ofícios se o «estatuto» que a ditava estivesse desactualizado por antigo, isto é, fosse o de 1650. Por outro lado, se a segunda reforma tivesse lugar em data posterior a 1736, seria de estranhar que fosse desconhecido ao findar do século, como de facto era.

O legado do Rev. Dr. Afonso de Magalhães e Barros e o Breve Apostólico de Bento XIV

O legado do padre barcelense Dr. Afonso de Magalhães e Barros é de 1739 e constitui um marco histórico para a Confraria. São os seguintes os dizeres iniciais da cópia bastante delida que dele conserva memória:

Instituição de legado perpétuo e doação que faz o reverendo Afonso de Magalhães e Barros, da vila de Barcelos, a Nossa Senhora da Saúde, deste Couto e Honra de Fralães.

Trata-se de uma escritura de razoável extensão; para tal contribuem quer as providências com que o legatário procurou acautelar a sua doação, quer também uma provisão do cabido bracarense com as formalidades inerentes. Esta escritura, lavrada a 27 de Agosto de 1739, é uma segunda «versão», pois já havia uma anterior, de 7 de Fevereiro do mesmo ano. A escritura de Agosto anula a de Fevereiro e acrescenta 230.000 réis ao legado inicial, que era de 500.000. É difícil de dizer a quanto equivaleriam estes 730.000 réis. Supondo mesmo que ficasse aí pelos 2.000 contos, restava ainda determinar o impacto que isso constituiria num meio onde se lidava certamente com pouco dinheiro, onde as trocas comerciais deviam ser pouco mais que inexistentes e, numa parte significativa, os próprios tecidos para o vestir haviam de ser de fabrico caseiro, artesanal. Mas passemos a palavra à escritura:

Em nome de Deus, amen. Saibam quantos este público instrumento de doação e instituição de capelas de missas perpétuas, ou como em direito melhor haja lugar e mais válido seja, virem que, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e trinta e nove anos, aos vinte e nove do mês de Agosto do dito ano, nesta freguesia de S. Pedro do Monte, que é deste Couto e Honra de Fralães, aí no cabido de Nossa Senhora da Saúde (...) onde eu tabelião fui vindo, com comissão do escrivão deste couto, que serve o presente ano, Pascoal da Costa de Azevedo, (...) apareceram presentes e outorgantes, de uma parte, o reverendo licenciado Afonso de Magalhães e Barros, de Barcelinhos, arrabalde da vila de Barcelos, e, da outra, o reverendo doutor Manuel Pereira Vilas-Boas, reitor da freguesia do Salvador de Silveiros, do termo desta vila, juiz da Confraria da mesma Senhora, bem assim mais, Manuel Gomes, da dita freguesia de Silveiros, escrivão da mesma confraria, e Custódio Domingues, tesoureiro dela, morador nesta freguesia, Manuel Martins, do lugar da Porta, mordomo, e José Gonçalves, procurador da mesma confraria (...)

Fragmenmto inicial da escritura muito apagada do legado do Rev. Afonso de Magalhães e Barros

Repare-se na constituição da mesa: o juiz, pároco de S. Salvador de Silveiros, é doutor; além de mordomo e tesoureiro, há escrivão e procurador. O procurador pode ter sido nomeado ad hoc, pois que de um capítulo de visita de Maio de 1741 consta o seguinte:

Fui mais informado que a Confraria da dita Senhora era custosa de servir e que sem grande trabalho não podia dar satisfação o tesoureiro à sua obrigação; portanto mando que o Reverendo Pároco em termos de quinze dias, em presença dos oficiais que se puderem ajuntar elejam um procurador que ajude na cobrança ao dito tesoureiro e em tudo o mais que lhe for necessário, para que desta sorte se possa suprir com mais suavidade este trabalho.

A sobrecarga de trabalho prendia-se evidentemente com a administração do capital deste legado. Mas ouçamos agora as intenções que moveram o legatário:

(...) por dever muitos benefícios à Virgem Nossa Senhora da Saúde, assistente nesta sua capela desta dita freguesia de S. Pedro do Monte, Couto e Honra de Fralães, e ter recebido dela grandes mercês e ser de sua particular devoção, e para que por sua vontade lhe conceda seus favores e o aceite por seu escravo e como tal dele tenha conta e goze os privilégios, liberdades e isenções dos seus amigos e devotos escolhidos e familiares, assim na vida como na morte, sendo medianeira e intercessora com Deus, para que lhe salve sua alma, por sua infinita misericórdia perdoe os seus pecados pelos méritos da Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Santíssimo Filho, lhe faz jurada e irrevogável doação, in perpetuum e imediatamente, de setecentos e trinta mil réis (...).

De seguida, são apresentadas as aplicações a dar ao dinheiro doado, melhor, aos seus juros, já que o capital ficaria intocável, «enquanto o mundo durar»:

(...) três missas em cada uma semana (...) no altar-mor da capela da mesma Senhora, rezadas e com responso no fim de cada uma delas pelas Almas do Purgatório, a saber, cada uma das ditas missas se dirá cada semana, às segundas-feiras, e outra nas quartas-feiras e a outra no sábado (...) e além das ditas três missas semanárias se dirão mais doze missas cada ano, também in perpetuum, uma em cada um dos segundos domingos de cada um mês (...), também com o seu responso (...)

Fácil é de ver o acréscimo de actividade que estas disposições trouxeram à Confraria, se bem que, a título de exemplo, o padre Aleixo Gomes de Abreu deixara, para serem rezadas por sua alma, quatrocentas missas, que foram celebradas também na capela de Nossa Senhora da Saúde.
O dinheiro sobrante dos encargos com as missas destinou-o o legatário, entre outras aplicações, «para o azeite da lâmpada do Santíssimo Sacramento, que se pretende instalar na mesma capela».
Vindo agora ao caso das providências com que o padre Afonso de Magalhães pretendeu assegurar in perpetuum, como lá se diz, a sua doação, cremos ser esta a mais interessante:

(...) nesse caso dá o dito dinheiro a Nossa Senhora do Rosário e sua confraria, da dita vila de Barcelos, com os mesmos encargos e obrigações, e, quando não aceite e não satisfaça as ditas missas no seu altar, dá e doa os bens desta doação a Nossa Senhora das Brotas, da freguesia de Santa Leocádia de Pedra Furada, com os ditos encargos, e aos ditos oficiais da sua confraria, para que dêem inteira satisfação às ditas missas, e constitui seus procuradores os ditos oficiais da dita vila (...)

Ainda em relação aos mesários da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, no caso de que viesse a verificar-se perda ou diminuição do capital legado, estipulou o legatário que: «porão (...) uma tábua na capela da Senhora dentro de seis meses, para sempre haver memória» dos encargos assumidos.
Paralelamente ao legatário, também a Confraria quis dar à recepção deste legado a importância que ele merecia, obtendo do cabido bracarense a provisão a que já aludimos. Mais que a própria provisão, pensamos que cabe aqui transcrever a petição que a obteve:

Dizem o Juiz e mais Oficiais da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, sita na sua freguesia de S. Pedro do Monte, do Couto de Fralães, que o doutor Afonso de Magalhães e Barros, da vila de Barcelos, quer fazer um legado na dita capela, com obrigação de duas missas semanárias e mais uma cada mês, que fazem cento e dezasseis cada ano, para o que quer doar à dita Confraria quinhentos mil réis para se porem a juro e dos rendimentos deles se mandarem dizer as ditas missas e o que sobrar se gaste no que for mais preciso, para veneração da dita Senhora e seu Sacratíssimo Filho, tudo a fim do bem espiritual do Povo e confrades da dita Confraria, e porque no referido considera esta grande actividade, pede a Vossa Senhoria lhe faça mercê conceder licença para aceitar o dito legado.

Esta petição tem em conta a intenção inicial do legatário que, já se viu, em Agosto, acrescentou 230.000 réis à doação de Fevereiro, acrescendo correspondentemente as obrigações.
Agora que terminámos esta síntese sobre alguns dos aspectos mais interessantes desta escritura, levanta-se a questão: que foi feito deste dinheiro?
Só sabemos responder em parte.
Até 1832, ano em que os Liberais desembarcam cá no Norte vindos da Ilha Terceira e de Inglaterra, as obrigações do legado foram inteiramente cumpridas; daí até à década de trinta do nosso século, só muito parcialmente se cumpriram; hoje, são de todo ignoradas da memória activa da Confraria de Nossa Senhora da Saúde.
Um dos benefícios advindo pela recepção do «legado grande» (dizia-se assim por oposição ao «legado pequeno», de que adiante falaremos) foi a possibilidade de colocar na capela o Santíssimo. O legatário previa já a eventualidade de, dos juros do seu legado, se custearem os gastos com o azeite da lamparina, cuja manutenção era condição determinante para a obtenção da licença para o efeito.
Pedido em 1805 ao «escribam do apostolico» «por serthidan o thior do Brebe de Roma se consedeo a dita Com Fradia pa colocar o Santissimo Sacramento na dita capella», conserva-se o traslado de tal documento, cujo original é de 1741. Porque o texto traz apenas dois pontos finais e talvez algum erro de cópia, a parte central, aliás a menos interessante, parece-nos intraduzível, pelo que, depois de o apresentar tal qual o possuímos, traduziremos apenas as partes inicial e final. Eis pois a letra do Breve Apostólico:

Benedictus Papa Decimus quartus.
Venerabilis Frater Salutem et Apostolicam Benedictionem. Exponi Nobis nuper fecerunt dilecti filii Officiales et Confratres Confraternitatis sub invocatione Nostrae Dominae della Salute vulgo nuncupatae intra limites Parochialis Ecclesiae Sancti Petri do Monte do Couto de Farelains bracharensis Dioecesis Canonice ut asseritur institutae quod ipsi pro majori Dei Gloria et eorum populorumque ibidem affluentium comsolatione Sanctissimum Eucharistiae Sacramentum in Ecclesia seu Cappella dictae Confraternitatis asservari posse plurimum desiderant Nobis propterea humiliter supplicari fecerunt ut in premissis opportune providere et ut infra indulgere de Benignitate Apostolica dignaremur Nos igitur dictos Exponentes specialibus favoribus et gratiis prosequi volentes et eorum singulares personas a quibusvis excomunicationis suspensionis et interdicti aliisque Ecclesiasticis sententiis censuris et penis a Jure vel ab homine quavis odcasione vel causa latis si quibus quomodolibet innodatae existunt ad effectum presentium dumtaxat consequendum harum serie absolventes et absolutos fore censentes hujusmodi supplicationibus inclinati de Venerabilium Fratrum Nostrorum Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalium Consilii Tridentini interpretum ad quos supplicem libellum Nobis porrectum remisimus qui relationem tunc existentis Vicarii Capitularis Metropolitanae Ecclesiae Bracharensis illius sede Archiepiscopali vacante ligitime deputati ad eosdem Cardinales transmissam attenderunt consilio Fraternitati tuae per presentes committimus et mandamus ut veris existentibus narratis eisdem Exponentibus ut facta per eos obligatione manutenendi ante Cyborium diu noctuque lampadem semper ardentem et salvis juribus Parochialibus petitam facultatem retinendi in predicta Cappella dummodo decenter ornata sacrisque supplectilibus munita reperiatur Augutissimum Eucharistiae Sacramentum Auctoritate Nostra Apostolica pro tuo arbitrio et conscientia gratis impertiaris ita tamen ut clavis Cyborii sachrista seu Cappellano ejusdem Capellae custodiatur Non obstantibus Apostolicis ac in Universalibus Provintialibusque et Synodalibus Consiliis editis generalibus vel specialibus Constitutionibus et Ordinationibus ceterisque contrariis quibuscumque Datum Romae apud Sanctam Mariam Majorem sub Annulo Piscatoris die vigesima secunda Aprilis Milesimi septuagesimi primi Pantificatus Nostri , Anno primo = loco Annulo Piscatoris.


Agora a tradução dos fragmentos inicial e final:

Papa Bento XIV.
Venerável Irmão, saúde e bênção apostólica.
Fizeram-nos expor recentemente os amados filhos, oficiais e irmãos da Confraria sob a invocação da Nossa Senhora, popularmente dita «da Saúde» — instituída canonicamente, como se afirma, dentro do termo da igreja paroquial de S. Pedro do Monte do Couto de Fralães, diocese bracarense — que, para maior glória de Deus e consolação sua e das gentes que aí acorrem, muito desejam que se possa conservar, na igreja ou capela da dita confraria, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. (...) Recomendamos e mandamos que, sendo verdadeiro o exposto, cumprida pelos exponentes a obrigação de manter, frente ao sacrário, dia e noite, uma lamparina sempre acesa e ressalvados os direitos paroquiais, lhes concedas, com o nosso beneplácito e a teu arbítrio e consciência, a autorização pedida de guardar na capela referida o Augustíssimo Sacramento da Eucaristia, na condição de tal capela estar sempre decentemente cuidada e dotada das alfaias sagradas. O seu sacristão ou capelão tenha sempre uma chave do sacrário e observem-se as ordenações apostólicas gerais ou especiais, bem como as determinadas pelos concílios universais, provinciais ou sinodais ou quaisquer outros impedimentos.
Dado em Roma, em Santa Maria Maior, sob o anel do Pescador, a 22 de Abril de 1741, no primeiro ano do nosso Pontificado.

Primeira página do Breve Apostólico

Em fins do século XVIII, de acordo com uma das páginas finais dos Capítulos de S. Pedro do Monte de Fralães, só havia sacrário na igreja da Confraria. A paroquial nunca o tivera.
Mas a dinâmica trazida pelo «legado grande» não se esgotou com a instalação do Santíssimo.

A reforma da Capela da Confraria e o «Legado Pequeno»

Efectivamente, em 1748, capitula-se a determinação que mais haveria de alterar o traçado, quiçá medieval, da antiga «ermida de S. Nicolau». Escreveu assim o visitador:

Visitei o Santíssimo colocado na capela de Nossa Senhora da Saúde. Louvo muito aos irmãos da Confraria o zelo com que procuram a sua veneração; porém, como, para se expor na mesma capela o Sacramento, se precisa de tribuna, e me consta é opulenta a dita Confraria, manda os oficiais dela, no termo de um ano, mandem fazer tribuna e acrescentar capela-mor, levantando o arco dela, para que fique com mais capacidade, cuja obra farão a arbítrio do Reverendo Pároco, que, espero, com o seu voto, fique com a perfeição devida.

O pároco chamava-se António de Sá Tinoco e já assinara no livro dos Capítulos em 1746. Terá falecido aí por 1775, sendo autor do «legado pequeno».
As obras realizaram-se; à excepção talvez da torre, devem datar de então quer o exterior quer o interior com que esta igreja hoje se apresenta.
Em 1781, a tribuna e o retábulo a ela posterior sofreram modificações que merecem ser assinaladas. Ordenadas desde 1763, mas foram-se protelando por falta de dinheiro. O que se mandara era o seguinte:

Os oficiais da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, no termo de um ano, mandarão dourar o retábulo da mesma Senhora com a sua tribuna, para se expor o Senhor com decência e se evitar o perigo de incêndio (...)
Página inicial do documento do «legado pequeno» do abade António de Sá Tinoco

De acordo com um termo de 1781, chamado o dourador, ele achou que havia madeira velha e carunchenta e por isso concordou-se «em fazer a tribuna de novo, aproveitando toda a madeira que está nova e também o altar de almofada». Embora as obras empreendidas tenham merecido ainda no mesmo ano um rasgado elogio do visitador, pois estava a fazer-se «obra mais esplêndida do que se capitulou», algo se perdeu. Uma vez que a tribuna tinha a ver, primeiro que tudo, com a exposição do Santíssimo, inutilizou-se o retábulo da Senhora da Saúde, onde estariam as tábuas carunchentas, que, deslocadas do lugar de origem, destoariam no meio do ouro novo, elas que vinham com certeza desde a instituição da Confraria. Em seu lugar ficou, pouco mais pouco menos, o que lá se vê hoje, com motivos para enquadrar a expo­sição do Senhor.
Documento que conserva memória das mudanças da talha do altar-mor e seu retábulo.

No sumário do documento que faz fé do legado do reverendo António de Sá Tinoco lê-se:

Escritura de legado, trespasse de direito e acção que faz o reverendo António de Sá Tinoco, abade de S. Pedro do Monte, deste Couto de Fralães, em 15 de Novembro de 1767.

Além da escritura, conserva memória ainda deste legado um termo de 1776, numa folha a desfazer-se, mas donde, apesar de tudo, se pode retirar ainda que pelos mesários «todos juntos e cada um in solidum foi dito que aceitavam o legado do reverendo abade António de Sá Tinoco, que foi desta freguesia, na forma que o aceitou a mesa do ano de 1767 e na forma da final sentença que se proferiu na Juízo dos Resíduos e Relação da corte e cidade de Braga (...)».
O capital do legado era de 80.000 réis. O legatário contudo não passou de sua própria mão para a do tesoureiro da Confraria este dinheiro, transferiu, digamos, um título de dívida. O padre António de Sá Tinoco emprestara os 80.000 réis a Francisco Martins e sua mulher, Maria de Araújo, do lugar do Rio, «para os gastos de seu filho Frei Manuel quando entrou para a religião» (isto é, quando ingressou no convento ou mosteiro); agora o mesmo padre «dava, doava, cedia e trespassava na dita Confraria da Senhora da Saúde todo o direito dos oitenta mil réis (...) e na dita Confraria, disse, transferia toda a acção e jus executivo da sobredita quantia, e, passado que seja 15 de Agosto do ano de 1768 poderão os oficiais da dita Confraria arrecadar os ditos oitenta mil já os faz procuradores «in rem suam propriam», com livre e geral administração (...)». «Milagre que fez N. S. da Saúde a Maria Rosa da Costa, mulher de António Cardoso, do lugar de (ilegível, mas talvez de Viatodos), que, depois de sofrer por largos tempos uma perigosa erisipela na cabeça, obteve, pedindo diante da mesma Senhora, com seu marido e seu menino e menina; logra feliz saúde desde o ano de 1797 para diante».

A obrigação do legado era de «mandarem dizer, todos os anos enquanto o mundo durar, vinte missas rezadas, esmola de duzentos réis cada uma, e ditas na capela da Senhora da Saúde, da dita freguesia de S. Pedro do Monte, pela alma dele doador ou por quem as quiser aplicar em sua tenção (...)».
O dinheiro continuou, a juro de 5%, nas mãos de Francisco Martins, mas só pagaria, e as missas também só seriam rezadas, após o falecimento do padre Tinoco. Os devedores «obrigavam suas pessoas e todos seus bens móveis e de raiz, presentes e futuros, direito e acção deles e terça de suas almas; e que, por especial hipoteca desta dívida e seus juros, obrigavam a seu prazo, foreiro ao fidalgo de Fralães (...)»
Entre as testemunhas do acto, contavam-se um tal Matias Ribeiro «cirurgião, da freguesia do Salvador de Ruivaães, termo de Bracelos».
É que os senhores de Fralães eram possuidores de bens em Ruivães e de lá viera o ramo de Correias e Lacerdas que então aqui era senhor. O documento remata nos termos seguintes:

E não continha mais a dita escritura, que aqui bem e fielmente fiz copiar do próprio, a que me reporto, em meu livro de notas, que fica em meu poder e cartório. Fralães, de Outubro 15, de 1805 anos.

A Confraria em crise

Nos últimos anos de Setecentos, a Confraria afundou-se em grave crise, de que temos notícia quase exclusivamente através dum Livro de Contas cujo primeiro termo de abertura (tem outro) data de 1795. Eis alguns dos dados mais relevantes que daí é possível colher:

— desencaminharam-se os estatutos;
— deixou de haver eleições;
— morreu o tesoureiro e um seu herdeiro ficou com o tesourado;
— um tal capitão Inocência António, não sabemos com que autoridade, determinou que o tesourado andasse à guarda de moradores de Monte de Fralães, mesmo que não fossem irmãos;
— o pároco recebeu das mãos deste capitão 80.000 réis, provindos dos juros da consignação que fora feita ao Conde de Cavaleiros (cuja esposa era Correia de Lacerda e herdeira da casa), e pagara-se com esse dinheiro de serviços prestados à Confraria[1];
— multiplicaram-se as demandas;
— em Junho e Setembro de 1799, o desembargador dos Resíduos em pessoa vem tentar debelar a situação.

Para se fazer uma ideia da «desordem», da «ruína» reinantes, leiamos o requerimento e portaria seguintes:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Dizem os Confrades da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, sita na sua capela da freguesia de S. Pedro do Monte de Fralães, que, sendo uma das confrarias mais opulentas daquele distrito, hoje se acha deduzida a um estado que se aproxima a finalizar por causa das muitas desordens que na mesma tem havido, com várias demandas a respeito do tesourado dela; e, para se evitar esta desordem, foi o Desembargador Juiz dos Resíduos àquela freguesia, para dar as providências justas para a sua conservação e aumento; e, deixando uma providência saudável a respeito do tesourado, esta pouco efeito surtiu pela razão de compreender só até à futura eleição, que deve ser na festividade de Nossa Senhora da Assunção, em cujo tempo querem os suplicantes que o mesmo Desembargador Juiz dos Resíduos assista à eleição, por não haver esta há muitos anos. Porém acontece haver naquela freguesia um capítulo de visita que manda que o tesourado ande na freguesia por giro nos seus fregueses, sejam ou não confrades, cujo capítulo serve de constituir a Confraria em maior desordem, por este ser a requerimento do Reverendo Pároco, causa e origem de ter chegado a Confraria a semelhante estado; e, para se evitar as futuras desordens e poder-se celebrar uma eleicão canónica entre todos os confrades, precisam que V. Ex. R.ma lhe faça a esmola determinar que aquele dito ministro, no acto da eleição, se conforme com os Estatutos e com tudo o que lhe parecer justo a bem e aumento da Confraria, para de uma vez se atalhar as desordens e ruína dela e se cuidar só no seu aumento, pela que pedem a Vossa Excelência Reverendíssima, em louvar da Mãe de Deus, assim o haja por bem, que pedirão à mesma Senhora prospere a Vossa Excelência Reverendíssima por dilatados anos. Receberão mercê.

Padre Custódio Gomes de Araújo Coelho, Leonardo Gomes de Araújo, Manuel José da Costa, Domingos da Costa, Manuel da Costa, António da Costa, Francisco José de Oliveira, Manuel Gonçalves da Cunha, António José da Costa, Feliciano de Lemos, Domingos da Costa, Manuel da Costa, Manuel José Alvares Leite, João António de Araújo, padre Manuel José Maciel da Aparecida, Feliciano José Rodrigues, Manuel Pereira, Francisco de Araújo, António José Leite, Manuel de Araújo, Manuel José do Amaral, o juiz capitão José Domingues da Silva, o alferes Manuel José Lopes, Domingos Pereira Barbosa, Manuel José de Araújo Silva, Francisco de Araújo.Página de abertura dos Estatutos de 1800
Agora a «portaria»:

De mandado de Sua Excelência Reverendíssima, remetido ao Reverendo Desembargador dos Resíduos para o que se pede. Braga, 19 de Agosto de 1799.

A Confraria de Nossa Senhora da Saúde libertou-se de facto deste mau momento, com a intervenção do Juiz dos Resíduos, em Setembro deste ano. Em 1801, porém novo e demorado período crítico a espera, vindo do exterior.

[1] Era então senhora de Fralães D. Francisca Correia de Lacerda Melo Pita Pacheco, casada em segundas núpcias com o 2º Conde de Cavaleiros, D. Gregório José Antó­nio de Eça e Meneses, mem­bro do Conselho de D. João VI, estribeiro-mor da rainha D. Carlota Joaquina, grã-cruz da Ordem de Santiago e, na mesma ordem, comendador da comenda das Pontes em Alcácer do Sal, comendador da Torre-e-Espada, tenente-coronel do regimento do Cais (Cavalaria 7), que acompanhou a famí­lia real ao Brasil.

Os Estatutos de 1800

Entre as medidas tomadas em 1799 para sanar a crise que se abatera sobre a Confraria, conta-se a nomeação, para tesoureiro interino, do então pároco de Minhotães, padre Custódio Gomes de Araújo Coelho. Foi também a este padre que coube a tarefa de redigir, «fazer», os novos estatutos. Pensamos que foi cumprida com brilho. Com dois aditamentos, um de 1815, outro de 1864, estiveram eles em vigor até 1912. Nenhuns outros se mantiveram por tão extenso período.
Antes de tecer algumas considerações a respeito do seu conteúdo, é de justiça uma palavra sobre a sua apresentação. Tendo-os nós mostrado uma vez a um entendido, o seu comentário foi «uma maravilha!». Mau grado a deterioração que quase dois séculos lhe causaram, é notório o cuidado que foi posto no seu arranjo externo: uma caligrafia uniforme e bonita, uma judiciosa distribuição do texto pela página e sobretudo um curioso trabalho de iluminura nas letras iniciais dos capítulos, bem como nas duas páginas introdutórias. Interessante também a ilustração do capítulo primeiro. O papel utilizado não foi, infelizmente, da melhor qualidade.
Aprovação e confirmação dos Estatutos de 1800 pelo Arcebispo D. Caetano Brandão

Compõem-se estes estatutos de vinte capítulos, a saber:

Cap. I — Dos limites da Confraria
“ II — Dos oficiais que haverá
“ III — Da eleição
“ IV — Do juiz e sua obrigação
“ V — Do escrivão e sua obrigação
“ IV — Do tesoureiro e sua obrigação
“ VII — Do procurador e sua obrigação
“ VIII — Do mordomo e sua obrigação.
“ IX — Do mordomo da capela
“ X — Do chamador e sua obrigação
“ XI — Das missas dos meses
“ XIII — Da festa principal
“ XIII — Do Aniversário
“ XIV — Do sufrágio dos irmãos
“ XV — Das entradas
“ XVI — Do peditório
“ XVII — Da entrega das contas
“ XVIII — Do dinheiro que se der a juro
“ XIX — Do poder da mesa em comum
“ XX — Das condenações

O texto dos estatutos propriamente ditos é precedido de uma espécie de frontispício, em maiúsculas, que reza assim:

ESTATUTOS DA CONFRADIA DE NOSSA SENHORA DA SAÚDE, DA FREGUESIA DE FARLAENS, REFORMADOS TERCEIRA VES, A PRIMEIRA NO ANNO DE MDCL. POR SE DESENCAMINHAREM OS DA SUA INSTITUIÇÃO. A SEGUNDA NÃO CONSTA, POR PERDIMENTO DESTES, E POR ISSO SE REFORMARÃO TERCEIRA VES, QUE HE ESTA, NO ANNO DE MDCCC.

Depois vem uma invocação a Nossa Senhora, do teor seguinte:
Giro da Confraria em 1800

Virgem imaculada, Mãe do Criador, a Vós, Senhora, recorrem os fiéis devotos irmãos da Vossa Confradia, com o singularíssimo título de Senhora da Saúde; eles, Senhora, querem zelar com a maior devoção a Vossa Confradia; eles se sujeitam a cumprir com as obrigações que nestes estatutos lhes são impostas; eles sem saúde nada pode executar; vós, Senhora, sois a Saúde dos Enfermos, Salus Infirmorum; concedei-lha, Senhora, para vos louvarem e engrandecerem, e a Vosso Ungénito Filho, e servir com a devoção que desejam a Vossa Confradia. Vós sois o Refúgio dos Pecadores, Refugium Peccatorum; refugiai debaixo da Vossa bandeira este piedoso rebanho, livrai estas mansas ovelhinhas das garras dos infernais lobos e fazei com que suas almas, fortalecidas nesta vida com a graça, vão gozar na outra da eterna glória. Assim seja.

Remata os estatutos uma procuração pela qual se delegam poderes nos respectivos procuradores a fim de estes cumprirem em Braga as formalidades necessárias à sua aprovação.
Para nos não demorarmos muito sobre o seu conteúdo, limitamo-nos transcrever, de seguida, o seu cap. IX, seguramente um dos de maior interesse para a Confraria enquanto associação religiosa:

Ordenamos que nos primeiros domingos de cada um mês se cante uma missa aplicada pelos irmãos vivos e defuntos, o celebrante no altar e três clérigos no coro, que a todos queremos se pague do tesouro da Confraria, e quando os oficiais queiram maior solenidade a pagarão das suas bolsas.
Isto que ordenamos a respeito das missas cantadas se entenderá chegando para elas o rendimento da Confraria, havendo consideração aos sufrágios dos irmãos, pois estes devem preferir às missas cantadas e, não havendo rendimento para as cantarem na forma dita, se dirão rezadas[1].

A 15 de Junho de 1800, depois de terem sido satisfeitos alguns esclarecimentos pedidos, D. Caetano Brandão aprova e confirma esta reforma dos estatutos.
Reivindicação da jurisdição régia

O direito de jurisdição

Com a provisão do Arcebispo, que implicava a sujeição da Confraria à jurisdição ordinária (eclesiástica), parece que deveria ter terminado o rosário de canseiras provocadas pela crise que durava havia alguns anos. Mas não foi o que aconteceu. Talvez alguém, a quem as medidas dos Juiz dos Resíduos, no ano anterior, não tivessem agradado, decidisse prolongar a crise. O certo é que, em 15/5/1801, o provedor da comarca (de Viana) lança nos estatutos a sua terminante reivindicação de jurisdição real, acusando a Provedoria Eclesiástica de usurpação.
Daqui nasceu um doloroso e prolongado pleito, donde a Confraria saía a principal prejudicada. O livro que contém as contas da irmandade entre 1793 e 1817 deixa-nos entrever os seus custos. O «agravo» iniciou-se em Braga, transitando em 1807 para o Tribunal da Legacia da Cidade de Lisboa. A sentença final, cujo texto se não conserva, foi proferida em 1816 ou 1817, e saiu vitoriosa a causa da Provedoria Régia.
A propósito das custas desta «demanda», um documento de 1800 dá-nos conta da situação financeira exacta e pouco brilhante da Confraria, situação então mais difícil «porque a Quinta está sequestrada, e todas as medidas, pelo novo governo, porque abandonou o Reino, por se ausentar para o Brasil». A quinta é a de Fralães, pois a Confraria tinha, à consignação na donatária do Couto de Fralães, a condessa de Cavaleiros, 400.000 réis. Quem se ausentou para o Brasil é claro que foi D. João VI mais o seu séquito – em que iam os Condes de Cavaleiros –, na iminência da chegada dos homens de Napoleão.
Memória da espoliação da Confraria pelos invasores franceses num inventário de 1800, com anotações posteriores.

[1] Além destas missas e das dos legados grande e pequeno, celebravam-se ainda vinte por cento dos «legados antigos», mais, evidentemente, as devidas a cada irmão.

Miscelânea

No que toca aos primeiros trinta anos do século passado, pode-se afirmar que a Confraria está bastante bem documentada: há o Livro do Irmãos, o Livro de Inventário, dois «livros de contas», além dos estatutos e algumas sentenças. Um ou outro documento ocasional, sobretudo escrituras de dinheiro a juros, podem-se procurar nos livros do tabelião do Couto de Fralães, instituição florescente nesta altura. Entre os anos trinta e os anos setenta, a informação escasseia, limitando-se a pequenos fascículos dos orçamentas anuais (conservam-se perto de uma dezena), a listas dos devedores das Confraria a quem se deveriam cobrar juros, alguns maços de recibos do tesoureiro e um ou outro documento mais original, como é o testamento do pároco João António Martins Rodrigues de Carvalho, que em 1855, deixou à irmandade alguns paramentos.
Em miscelânea, vamos seleccionar, destes dois períodos, alguma notícias mais curiosas.
Comecemos por falar dos confrades, os irmãos. Em Monte de Fralães, já de antes de 1800 toda a gente estava inscrita como irmão, os mais deles remidos. Ao menos é o que parece deduzir-se de certo passo de um «termo de composição» de 1799, quando se fala «dos irmãos e moradores da mesma freguesia que, sendo todos juntos nesta apela, assentaram e concordaram ser todos irmãos, para o que foram assentados no livro respectivo, pela entrada remida: os novos, duzentos e quarenta, e os que tinham sido riscados não deram coisa alguma, por o terem feito». De Viatodos, também quase toda a gente deveria estar inscrita. O registo de 1800, para esta freguesia, faz-se por lugares, tal era o número de confrades (como nos róis da décima, do concelho). Também havia muitos irmãos de Silveiras, embora a proporção e cresça por comparação com Viatodos. Das outras freguesias pertencentes ao «giro», algumas merecem destaque: Chorente, Góios, Macieira, Negreiros, Grimancelos. Nas restantes, é menos significativo o número dos irmãos. Em 1818, chega a inscrever-se como irmã uma senhora de Fão. (Em 1893, haverá três irmãos naturais da «Vila de Fão».)
Uma olhadela agora ao inventário feito em 1800. Começa assim:

Item, uma cruz de prata, com a sua vara da mesma, de prata;
Item, uma cruz de prata, do guião, com a sua manga de damasco branco;
Item, um turíbulo e naveta de prata, com sua colher;
Item, uma vara de prata, do juiz
Item, um cálice de prata, dourado, com sua colherinha e patena;
Item, um vaso que está no sacrário, de prata;
Item, um vaso de estanho fino;
Item, duas coroas de prata, uma da Senhora grande, outra da Senhora pequena; (...)

Todos estes objectos, à excepção da vara do juiz, que se vendeu, foram roubados, ou num assalto feito à capela em 1803 ou 1804, ou pelos invasores napoleónicos. Em notas marginais ou entrelinhadas, lê-se: «Esta foi pa o Geno» ou «foi pa os franceses». No primeiro caso, pretenderia dizer-se: «Esta foi para Junot».
Havia mais prata e estanho, mas a prata, se não fora roubada antes, foi toda «para o Junot». (Provavelmente, foi para o «Maneta», o general Loison, e não para o Junot.)
A primeira das cruzes de prata, bem como a coroa do mesmo metal da imagem grande eram decerto as que já vinham referenciadas em 1650 e seriam tão antigas como a Confraria.
Posteriormente, aí por 1820, D. Mariana Umbelina, de Ruivães, ofereceu novas coroas de prata para as duas imagens da Senhora da Saúde.
A gestão da Confraria, à parte as actividades de carácter estritamente religioso, era sobretudo a gestão dos seus recursos, magros para as despesas. Ligada a essa gestão, andavam de mãos dadas a burocracia e a justiça. Apresentando contas à jurisdição real, em Barcelos, e mais tarde em Braga, no Governo Civil, não raro as despesas não recebiam aprovação. Particularmente curioso é um caso ocorrido num dos primeiros anos de 1800: o juiz trouxera música para animar a festa; pois o «senhor Fidalgo» (o Conde de Cavaleiros, com certeza) obrigou o juiz a pagar de seu bolso tal extravagância.
O recurso ao tribunal verificou-se muitas vezes por insolvência dos credores. Conservam-se algumas «sentenças» que tiveram esta origem: uma, muito extensa, teve a ver com um credor afidalgado, natural de Vilarinho das Cambas; duas outras, relativas a credores mais da vizinhança, são da autoria do juiz do Couto de Fralães; finalmente, a última foi decidida pelo juiz de paz do Distrito de Viatodos. Conservou-se também a «sentença dos altares», eclesiástica.
Sem dúvida curioso também é o destino que, no ano económico de 1852/53, a Confraria deu a 50 réis. No rol das despesas, lê-se a dado passo: «Idem, para as despesas da vinda de S. Majestade, que Deus haja em glória, quando passou por aqui, 50 réis». Não sabemos o que se terá pago com este dinheiro, mas ficou ao menos o registo de que D. Maria II (que faleceu em 15.11.1853) visitou o santuário da Senhora da Saúde.
Cremos que é também a este santuário que se refere Camilo quando fala de uma peregrinação à Senhora da Saúde em certa página do seu livro sobre a Maria da Fonte.

O pároco João António Martins Rodrigues de Carvalho, que paroquiava Monte de Fralães pelos anos quarenta do século passado, contemplou a Confraria de Nossa Senhora da Saúde. Vejamos em que termos o fez[1]:

Declarou que deixa todas as suas cortinas que tinha de seda e damasco, que existirem ao seu falecimento em seu poder e que são duas, para a Confraria da Senhora da Saúde da dita freguesia de Fralães, com a condição e obrigação da dita confraria as emprestar sempre enquanto elas durarem somente para servirem nas festas que se fizeram na capela de Santa Marta de Coura, para servirem nas festas do Santíssimo Sacramento de Nine e da Senhora do Rosário de Nine (...) e deixava à dita Confraria da Senhora da Saúde (...) os seus paramentos ricos, que são a vestimenta, duas dalmáticas, duas estolas, três manípulos e uma capa de asperges, tudo com galões de patilha dourada, e também lhe deixava (...) o seu gibão de lã, de cor branca e vermelha, que tudo servirá igualmente nas festividades do padroeiro, S. Pedro (...) Página do testamento do P.e João de Carvalho

Não nos era difícil continuar a recolher elementos de informação dispersos por este ou por aquele documento. Por o acharmos desviado do objectivo que nos norteia, propomo-nos terminar aqui a nossa «miscelânea», chamando apenas a atenção para um significativo restauro feito na torre em 1855. A obra, arrematada em hasta pública, foi adjudicada a um pedreiro residente em Silveiros, mas natural da Galiza, que assinava Jose Corbal y Piñero.

De 1870 a 1900: o período áureo

Não restam dúvidas que, por volta de 1870, a Confraria entrou num período de expansão.
Em 1864, haviam-se actualizado as cotas de entrada dos irmãos; em 1873 e 1877, fez-se o inventário de todos os haveres; a partir de 1894, há livros de contas e de actas. Para além da elevação do nível cultural que se nota na escrituração, a prova real dessa expansão colhe-se no Livro dos irmãos de 1893. Enquanto nas décadas de meados do século os irmãos anuais rondavam os 500, em 1893 são 729, cifrando-se os remidos em 249, o que perfaz 978. Ao virar do século, deviam totalizar 1100. Como explicar este surto de crescimento?
Cremos que a partir de determinado momento se tornou chique estar filiado na Confraria; paralelamente, terá havido também um esforço de doutrinação, o que parece justo deduzir-se de haver vários sacerdotes entre os irmãos[2].
Mas tentemos ver as coisas mais em pormenor.
Durante o século XIX, foram os seguintes os senhores de Fralães: a Condessa de Cavaleiros, até 1828; o Conde de Terena, José Maria Brandão de Melo Cogominho Correia Pereira de Lacerda e Figueiroa, agora mencionado, e que foi governador civil do Porto; o Marquês de Terena, Luís Brandão de Melo Cogominho Correia Pereira de Lacerda e Figueiredo, que casou com D. Maria Ana de Sousa e Holstein, filha do Duque de Palmela; a Marquesa de Monfalim e Terena, D. Eugénia Maria Filomena Brandão de Melo Cogominho Correia de Sá Pereira de Lacerda do Lago Bezerra e Figueiroa, nascida a 21/05/1840 e falecida a 30/05/1900, que casou com o tio materno D. Filipe de Sousa e Holstein.
Há-de ter pertencido ao Marquês de Terena e esposa, a iniciativa da visita de «S. Majestade» à igreja da Senhora da Saúde; se de facto é, como se diz, da Marquesa de Monfalim o túmulo que se encontra frente à pia baptismal dessa igreja, isso atestaria a devoção de tal Marquesa à mesma Senhora. Até há pouco, distribuía a Confraria umas estampas em que se chamava a pequena igreja de Monte de Fralães «mosteiro». Essa enormidade vem de fins do século passado e há-de ser mais ou menos contemporânea do soneto de Barbosa Campos com que iniciámos este capítulo.
Actual Igreja Paroquial com a sua torre

Parece ter vicejado então por estas paragens uma vaga fugaz de romantismo tardio[3]. A Casa de Fralães, agora restaurada, tão antiga e com pergaminhos de tanta nobreza, que Camilo fizera entrar em pelo menos duas das suas novelas, agora possuída por uma marquesa, estava nas condições ideais para o alimentar. Os mais velhos e saudosos do passado ainda recordariam os bons tempos do Couto de Fralães e da Câmara Municipal.
A par desta vertente eventualmente mais passadista da elite cultural das redondezas, o culto padre João Rosa lideraria uma outra mais sintonizada com o espírito positivo do momento. Paroquiando Monte de Fralães entre 1874 e 1876, procedeu ao restauro, nos aspectos mais urgentes, da antiquíssima igreja paroquial, lançou judiciosas anotações no Livro dos capítulos, organizou o Livro dos legados e redigiu o inventário de 1877. No Livro dos irmãos de 1893, vem inscrito por Monte de Fralães. Não sabemos se terá tido alguma parte na vinda de M. Sarmento ao Monte d’Assaia, em 1877 ou 1878, mas é sabido que, em 1898, foi elemento activo nas formalidades legais da aquisição para a Sociedade patrocinada por aquele vimaranense dos que hoje são os dois monumentos nacionais existentes no referido monte.
D. Filipe de Sousa e Holstein foi tio e marido da Marquesa de Monfalim, D. Eugénia Maria Filomena Brandão de Melo Cogominho Correia de Sá Pereira de Lacerda do Lago Bezerra e Figueiroa. O casal morreu sem geração.

Continuando a nossa tentativa de vislumbrar as circunstâncias em que a Confraria se lançou para o seu momento mais brilhante, não podemos deixar de registar que em 1873 e anos seguintes foi juiz um tal Simão Maria Carreiro de Vilhena Abreu e Lima. Não é que saibamos muito sobre este senhor, que residia em Monte de Fralães; mas a sua escrita parece denotar uma cultura bastante acima do vulgar e foi ele quem esteve à frente da irmandade ao tempo em que o padre João Rosa paroquiava a freguesia. No registo de 1893, aparecem com assinalável frequência «donas» — o que era raríssimo no de 1800. Texto autógrafo do P.e João Rosa

Entre as pessoas gradas da irmandade contar-se-iam com certeza os Mirandas, os Neivas e os Oliveiras, de Viatodos. Em finais do século ordenou-se um padre Miranda e um padre Neiva. O padre José Garcia era filho de José Joaquim de Oliveira, o compadre a quem o padre Rosa dedicou a Cavalgada. O reitor de Viatodos, Luís Augusto Chaves, era irmão remido e presidiu a algumas mesas nos anos que antecederam 1900. Por esta altura, havia alguns irmãos idos para o Porto ou de lá vindos. Entre os que de lá vieram, estavam o comerciante de simpatias maçónicas Sebastião Moreira e o industrial e comerciante Luís Vilares.
Às pessoas que referenciámos e, evidentemente, a muitas outras cuja acção desconhecemos, se há-de ter ficado a dever o momento que assinalamos de expansão da Confraria — o seu período áureo, pois que durante ele, ricos e pobres das freguesias vizinhas se juntaram, formando um grupo tão grande e tão humanamente variado como, depois dessa geração, se não voltou a reunir.
Eis a lista da distribuição dos irmãos pelas freguesias da respectiva naturalidade, feita a partir do registo de 1893.
[1] O texto, como se vê, não é muito claro, mesmo com uma pequena correcção que se introduziu. Um termo feito pela mesa que recebeu esta doação explicita melhor as coisas: o padre Carvalho deixou estas alfaias à Confraria de Nossa Senhora da Saúde, mas esta tem a obrigação de as emprestar para as solenidades religiosas que se reali­zarem em Nine.
[2] Em Viatodos, havia uma confraria eclesiástica, certamente bastante activa, desde longa data, a Confraria da Senhora das Neves. Pensamos que se filiavam aí quase todos os sacerdotes das redondezas. Aliás, era nesta freguesia que, desde o século XVIII, tinham lugar as conferências de Moral, a que ocorriam os eclesiásticos de Monte de Fralães, Grimancelos, Minhotães e, claro, os de Viatodos.
[3] Inteiramente a despropósito, ao modo de quem experimenta a pena, alguém escreveu, cerca de 1875, num livro de inventário: «Nada ha mais bello que amar».
O soneto de Barbosa Campos foi recolhido de Soeiro Mendes, A Ver Terras. Soeiro Mendes era o Abade Sousa Maia, pároco de Canidelo, Vila do Conde.

A República e as suas sequelas

Para o período que vai de 1900 a 1934, são os seguintes os livro (e não há documentos de outro género no seu «arquivo») que nos informam sobre a Confraria: dois «Livros de Actas», um que vinha de 1894 e termina em 1912 e outro que vai de 1912 a 1915; três «Livros de Contas», que contêm, no seu conjunto, a contabilidade da associação religiosa entre 1899 e 1910; um Livro de Inventário, de 1917, mas com acréscimo Posteriores; e um Livro dos Irmãos.
A contabilidade oficial dos «livros de contas» é de interesse reduzido; com certeza à margem dela, desenvolvia-se outra. Assim, em 1900, o tesoureiro António Gonçalves da Cunha, que apresenta uma receia de 127.390 réis e igual quantia para a despesa, pôde adquirir uma cruz de prata no valor de 121.000 réis, tendo, em 1892, já adquirido uma vara, também de prata, para o juiz, por 20.000 réis, e adquirindo ainda, em 1901, um sino, por 64.800 réis[1].
Sem ser uma confraria rica, a Confraria da Senhora da Saúde devia ser então uma confraria briosa, podendo apresentar, em dia de festa, uma procissão condignamente ornada. Havia até uns valiosos brincos à rainha e um colar de pérolas, com certeza para adorno da imagem.
A respeito dos «Livros das Actas», começam a despertar interesse em 1908. A catorze de Agosto desse ano, procedera-se, normalmente, à eleição da mesa. A 20/9, realizou esta uma sessão, com agenda desconhecida, pois foi inteiramente apagada a acta que então se lavrou. A 6/12, procede-se a uma «eleição extraordinária, decretada pelo Exce­lentíssimo Senhor Governador Civil, em alvará de vinte e seis de Novembro findo, publicado em edital do Excelentíssimo Administrador do Concelho». Foram então eleitos, para juiz, Aires Pereira da Silva Campos, de Monte de Fralães; para secretário, Joaquim Carvalho de Faria, de Silveiros para tesoureiro, António Joaquim Senra, de Monte de Fralães; e, para procurador, Domingos da Cosa, também de Monte de Fralães. Em 7/2/1909, porém, o administrador do concelho, Conde de Vilas-Boas, desloca-se a Monte de Fralães a fim de assistir a nova «eleição extraordinária da mesa que tem de servir até ao fim do presente ano económico, decretada pelo Excelentíssimo Governador Civil em alvará de um de Janeiro findo, publicado por edita do Excelentíssimo Senhor Administrador do Concelho de vinte e cinco do mesmo mês». Aires Pereira da Silva Campos enviou à mesa eleitoral «cinco protestos», mas a equipa de mesários que chefiava saiu vencida por uma margem não muito significativa de votos, sendo eleito, para juiz, António José de Araújo Miranda, de Silveiros; para secretário, Manuel José da Silveira, de Monte de Fralães; para tesoureiro, João de Araújo, também de Monte de Fralães; e para procurador, António Correia de Campos, de Silveiros.

A marquesa de Monfalim foi certamente uma devota de Nossa Senhora da Saúde. Consta que é este o seu túmulo.

Pode-se legitimamente perguntar pela razão da vinda a Monte de Fralães do administrador do concelho (presidente da câmara, diríamos hoje). Essa vinda tem a ver com o direito e, no caso, dever de jurisdição real, civil, sobre a Confraria; no fundo, contudo, estaria em causa travar o ímpeto republicano de Aires Pereira da Silva Campos, ou Aires do Rio, ímpeto que ainda haveria de dar que falar, como o atestam os mesmos «livros das actas» e também as actas da Junta de Paróquia. A partir de 1910, a luta personaliza-se: Aires do Rio contra Luís Vilares. Ironicamente, Aires do Rio vem a ser vencido numa célebre questão, em recurso decidido por Bernardino Machado a favor de Luís Vilares (recurso 15.340, publicado no «Diário do Governo», II Série, 24/6/1916).
Em 1912 e 1918, houve duas reformas dos estatutos. Em 1912, pre­sidia à Confraria Luís Vilares; em 1918, Aires do Rio.

Hoje são raras, mas há algumas décadas eram frequentes as «vigílias» que se dirigiam das freguesias das vizinhanças à igreja da Senhora da Saúde. Eram grupos de populares que vinham cantando em honra da Senhora. Nem sempre a sua devoção se exprimia do modo mais recomendável. Repare-se numa quadra que uma vez ouvimos cantar, onde o interesse supera a devoção:

Senhora da Saúde,
O caminho pedras tem;
Se não fizésseis milagres,
Aqui não viria ninguém.


Os ventos do anticlericalismo reinante, estas divisões no interior da irmandade, a pressão que de Viatodos se fez sentir no sentido de incorporar em si Monte de Fralães e as reacções desencontradas daí nascidas hão-de ter constituído embriões da decadência que começou a abalar a Confraria.
Em 1920, por iniciativa de Aires do Rio, a Confraria pôs ao dispor da Junta de Paróquia a quantia de 800.000 réis para a abertura do troço de estrada que liga a igreja à estrada nacional.
Na base da imagem do Sagrado Coração de Jesus que se venera no altar colateral do lado oposto ao da Senhora da Saúde lê-se: «Luís Vilares. Pertence à Quinta de Fralães.» Luís de Andrade Vilares foi, durante alguns anos, dono desta quinta. Testemunho da sua devoção à Senhora da Saúde foi «um manto novo da Senhora, obra de grande valor, todo bordado a ouro, e todos os seus respectivos preparos para vestir a Senhora nos dias da festa e mais cinco bandeiras novas com os respectivos bordões que foram oferecidos por Luís de Andrade Vilares, do Porto, bem como uma casula e um véu de ombros, também obra de arte e valor». Estas palavras são de um registo de inventário feito por Aires do Rio em 1926.
Em 1932, o número de irmãos ainda se cifrava em 739; 30 anos antes eram 1287.

Os caixões das promessas
Em tempos recuados, as confrarias dispunham de um caixão para levar os corpos sepultar. Derivada com certeza desta tradição, houve em Monte de Fralães uma devoção estranha: as pessoas faziam a promessa de se passearem num caixão pelo terreiro.
Há uns trinta anos, o pároco de então acabou com esta prática. Era costume é conhecido noutros lugares.


De 1934 à actualidade

Fruto do entendimento mais realista entre o Estado e a Igreja, em 1934 são aprovados, «por Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Arcebispo Primaz», novos Estatutos (os anteriores haviam sido aprovados pelo Governador Civil). No mesmo ano, fez-se novo inventário.
De entre 1936 e 1940, conserva-se um interessante Livro de Contas. Durante estes anos, é «presidente» da mesa o pároco padre José Pedro da Silva Rodrigues. Ao que parece seria um homem lúcido e enérgico, capaz de se colocar acima das questiúnculas que corroíam a irmandade. Em 1936, fez um arranjo completo da igreja, em que gastou quase 5.000$00; no terreiro gastou cerca de 1 500$00; num palanque, 300$00; em reparações na estrada, também 300$00. Em 1937, com os muros do adro, escadório e canos do terreiro, foram gastos 2.200$00. Em 1938, despendeu-se em «desaterro do adro», 600$00; com «quebrar os penedos do adro», 700$00; com um «palanque para a música em pedra e cimento», 992$00; em «castanheiros e oliveiras para o terreiro», 126$00. Em 1939, são ainda gastos 1.500$00 nos muros do adro. Em 1940, com a «casa dos milagres» são despendidos 2.761$09.
Em cinco anos, a igreja, adro e terreiro ganharam uma imagem nova — aliás seria ainda quase gótica a do adro e do terreiro, com penedos, ladeiras íngremes e até um rego de água.
Estes investimentos, como outros já assinalados, feitos em tempos economicamente tão difíceis, tiveram o seu lado negativo, cremos até que muito grave. No fundo, gastou-se, provavelmente, não rendimento da Confraria mas o seu pecúlio, o dinheiro dos legados, o que era ilegal.
Nos anos mais recentes, a escrituração tem sido muito descurada, pelo que quase não há base escrita para uma recolha séria de informações. Até entrados os anos sessenta, Monte de Fralães e com ela a direcção da Confraria viveu em permanente divisão: um grupo mais salazarista e tradicionalista, outro mais «republicano» e oposicionista. Deste despique saíram algumas obras, como o fontanário, os actuais palanques, os muros do terreiro, o carrilhão e o relógio, etc.
Que saibamos a Confraria enquanto associação religiosa propriamente dita tem padecido de evidente falta de iniciativa.
Nos anos sessenta, aproveitando a tão antiga (já lá vão quase quatro séculos) e tão largamente enraizada devoção à Senhora da Saúde, surgiu a peregrinação anual das freguesias mais próximas ao santuário de Monte de Fralães, num domingo de finais de Primavera ou princípios de Verão.
Imagem de Nossa Senhora da Saúde, transportada no seu andor, em procissão.
A Festa de Nossa da Senhora da Saúde e a Beata Alexandrina
Numa carta ao P.e Mariano Pinho, um dia a Beata Alexandrina afirma que Jesus está triste com a Festa de Nossa Senhora da Saúde. Veja-se informação mais desenvolvida aqui.
[1] Por esta altura, haverá muitos mesários de fora de Monte de Fralães, o que consideramos muito louvável. Deste António Gonçalves da Cunha, porém, por um dos livros das actas da Junta de Paróquia sabemos que era de Monte de Fralães, provavelmente da casa da Granja, e que foi, durante vários anos, presidente dessa Junta.