quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A "Confradia da Saúde" (cont.)

Monte de Fralães foi paroquiada, entre 1594 e Outubro de 1634, pelo sacerdote Tomé da Guarda[1]; há-de pois ter sido sob os seus cuidados pastorais que a Confraria surgiu. Como mais abaixo se mostrará, na última destas duas datas, ela tinha já as suas tradições.
Mas prestemos agora um pouco de atenção ao cruzeiro.
Este cruzeiro era o cruzeiro da Confraria e só há pouco mais que uma dúzia de anos ascendeu a paroquial, abandonando a localização primitiva onde permanecera três séculos e meio. Erguia-se frente à antiga capela, abaixo do muro que divide o adro do terreiro. Na peanha que o sustenta pode ler-se: «Pedro Antunes o mandou fazer 1625»[2]. Sem nenhuma dúvida portanto, nesta data já funcionava a irmandade.
Em 1634, veio paroquiar a freguesia o sacerdote Pedro de Freitas. A sua intervenção no precioso primeiro volume dos Registos Paroquiais foi por demais evidente e oportuna. De lamentar que se não conservasse por inteiro o fruto da dedicação que lhe votou[3]. Saída da sua pena, vejamos esta lista de «missas perpétuas que se dirão na ermida da Senhora da Saúde»:

(...) Gonçalves, de Vila Pouca, Minhotães, tem obrigação de mandar dizer duas missas cada ano pela alma de Maria Martins, daí, para o que lhes deixou umas herdades.
António Martins, de Requião, Minhotães, tem obrigação de mandar dizer cada ano por Maria Fernandes, daí, para o que lhe deixou herdade, uma missa.
Maria Gonçalves, mulher de António Martins, de Eira Grande, de Viatodos, tem obrigação de mandar dizer cada ano uma missa pela alma de Isabel Martins, de Campesinhos, para o que lhe deixou a leira das Carizes, que é herdade.
Bartolomeu Martins e sua mulher, Maria Martins, do Monte, desta freguesia de S. Pedro, deixaram certas herdades à
Senhora da Saúde com a obrigação de os oficiais da Senhora lhes mandarem dizer cada ano, na sua capela, cinco missas pelas suas almas, como consta do papel que disso fizeram e posse que delas tomaram.
Pêro Martins, de Luscos, me disse que a Maria Martins acima lhe deixara uma leira que tinha no campo da Porta, dele, Pêro Martins, com obrigação de lhe amentar cada ano por sua alma; ele me dá meio alqueire de milho por ela e se foi conselhar com os Apóstolos, e lhe disseram que nem obrigação tinha de amentar, por a leira não ser capaz disso, e, por o ter por timorato e me aquietar sobre o que me disse, não dei carta ao visitador.
Tem a
Senhora da Saúde para fábrica quatro alqueires de pão meado, pelo alqueire do Paço, da bouça que está na Chã; ao presente a trazem Bartolomeu Martins, de Luscos, e Gonçalo Martins, do Xisto.

Esta citação carece de algumas observações. Seja a primeira a de que, tendo a Senhora da Saúde «oficiais», isto é, mesários, existia confraria; vê-se também que a sua implantação já se estendia até Minhotães e Viatodos; com algumas probabilidades, deduz-se que à data não seria muito antiga, pois os devotos da Senhora da Saúde citados parecem ser do conhecimento dos eventuais leitores do apontamento do padre Pedro de Freitas. A palavra «apóstolos» que se aparece no penúltimo item equivale a Jesuítas.
Rebuscando nos registos paroquiais de Monte de Fralães e de Viatodos a data de falecimento dos homens e mulheres mencionados na lista, apenas conseguimos identificar o registo de óbito de Bartolomeu Martins, do «Monte», que é de 1632. Os registos paroquiais de Viatodos começam em 1616, mas não encontrámos lá nenhuma Isabel Martins que fosse de Campesinhos, conquanto aparecesse uma homónima, sem indicação do lugar e solteira, falecida em 1618. Não é impossível que corresponda à senhora referenciada no item três.
Um registo de 14/11/1634 informa-nos que nessa data:

Se faleceu Isabel Fernandes, mulher de António Martins, do Rio; dizem que fez manda verbal, em que deixou lhe fizessem um ofício de dez padres e vinte missas onde quiserem, e obradassem no presente conforme ao costume. Mas no dia do enterro se fez um ofício em que assistiram dezassete padres, e se enterrou na ermida de Nossa Senhora da Saúde (...)

Iluminura dos Estatutos de 1800

Este enterro poderá parecer intrigante para quem pense que o aumento que esta «ermida» sofreu no século XVIII deva ter sido para norte; nesse caso, a ermida seiscentista assentaria toda ou em penedo ou a dois ou três palmos dele, o que impossibilitaria qualquer enterro. De facto, o aumento foi no sentido do altar-mor.

De 1650 a 1700

Os Estatutos de 1800, que constituem a terceira reforma, dão-nos conta de que a primeira ocorrera em 1650, «por se desencaminharem os da sua instituição». E de crer que, actualmente como em 1800, se conserve a versão de 1650, em Braga, e talvez ainda uma cópia, total ou parcial, em Lisboa. Como já o dissemos atrás, entre os papéis desta confraria guarda-se um documento que contém «o teor do capítulo dos mesmos estatutos relativo ao mordomo da capela». Ei-lo:

Que o mordomo da freguesia tenha em sua casa uma caixa, que para isso fica feita, em que estará a cruz e a coroa de prata de Nossa Senhora, frontais, toalhas e todo o mais fato que tiver de seu uso e serviço, que se entregará por inventário e pelo mesmo dará conta ao novo mordomo que pelos anos vindouros lhe suceder. E quando as cortinas, sobrecéus, toalhas dos altares houverem de ser lavadas ou consertadas, o mordomo o mandará fazer com toda a diligência; com a mesma consertará os altares, pondo-lhes os frontais, segundo (sic) o primeiro com rosas e cheiros, varrendo a igreja as mais vezes que puder ser, e nos dias da Senhora encomendar às mulheres solteiras tragam juncos e espadanas e se enfeitará a igreja o mais que comodamente possa ser e se porá à Senhora a sua coroa de prata, e à noite se tornará a recolher porque, como é de preço, a não furtem. Ordenamos que para melhor governo haja na porta travessa de Nossa Senhora e na grade do arco três chaves, uma que tenha o reverendo abade, outra o mordomo da freguesia, para que todas as vezes que for necessário ir varrer a dita ermida, acender a lâmpada, enfeitar os altares e mais coisas necessárias, o possa fazer com liberdade, e o reverendo abade com a mesma, indo à ermida todas as vezes que lhe parecer. A terceira chave estará sempre nas casas de Fralães, para quando os senhores dela quiserem ir fazer oração.

Diz-se-nos aqui que a Confraria possuía uma cruz de prata (que era de procissão) e uma coroa, também de prata, para a imagem. Estes dois objectos foram roubados pelos invasores napoleónicos. Aí por 1830, uma D. Maria Umbelina de Ruivães, mas também de Fralães, pois as casas andavam juntas, ofereceu nova cruz e nova coroa de prata. A existência de uma coroa que foi utilizada durante tantos anos leva-nos a crer que a imagem se terá mantido a mesma, ao longo de tal período. A imagem que hoje se venera deve vir apenas da primeira década do séc. XX.
Na redacção da versão dos estatutos de 1650, entrou certamente a pena do reverendo Pedro de Freitas, que paroquiava Monte de Fralães desde 1634 e aí continuou pelo menos até 1662. Na Casa de Fralães, seriam ainda vivas várias das pessoas que referenciámos atrás.

Do meio século seguinte, não é muito o que sabemos sobre a Confraria; vejamos porém o que é possível reunir.
Em todos os inventários do século XIX (1801, 1831, 1873), há referência a uma obrigação pela qual:

Paga Manuel Araújo e seu filho, e hoje João Pereira, do lugar da Venda, freguesia de Viatodos, dez medidas de pão meado, impostas no campo do Viso, sito nos Regadios, por escritura de 31 de Março de 1651, feita em Barcelos pelo tabelião António da Silva Borges.

Presentemente não se conserva qualquer documento a atestar esta antiga aquisição nem o seu fundamento.
Quando os Estatutos de 1800 foram a Braga para aprovação, lá exigiram alguns esclarecimentos. Num deles, a determinada altura, fala-se dos:

(...) Estatutos da primeira reforma apensos, nos quais se mostra serem da jurisdição ordinária, confirmados pelo Ilustríssimo Cabido, sede vacante, no ano de 1655.

Regressando aos inventários, tomamos conhecimento de que também:

Paga Francisco Pereira, da freguesia de Sequiade, lugar de S. Pedro de Sá, três medidas de pão meado, impostas na bouça rias Flores e na casa em que vive, por escritura feita em Barcelos pelo tabelião Paulo Garcia de Carvalho.

Desta escritura, de 1684, conserva-se traslado, feito com certeza na mesma data em que se lavrou o original. O sumário traz os seguintes dizeres:

Venda que fizeram João Rodrigues e sua mulher de freguesia de S. edro de Sá, aos oficiais de Nossa Senhora da Saúde, deste Couto de Fralães.

Vejamos um pouco mais do documento, aliás o mais antigo que a Confraria possui no seu «arquivo»:

Saibam quantos este público instrumento de carta de pura venda, firme e valiosa deste dia para todo o sempre, ou como em direito mais válido seja, virem que, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil seiscentos e oitenta e quatro, aos vinte e dois dias do mês de Julho, neste Couto e Honra de Fralães, na Devesa da Granja que está junto à estrada, distrito deste couto, aonde eu tabelião vim, aí em minha presença e das testemunhas adiante nomeadas e assinadas, apareceram presentes e outorgantes João Rodrigues e sua mulher, Domingas Fernandes, moradores na freguesia de S. Pedro de Sá, do termo da vila de Barcelos, pessoas conhecidas das testemunhas e elas de mim tabelião, e por eles ambos juntos e cada um in solidum foi dito, em minha presença e das pessoas que estavam contratadas com os oficiais de Nossa Senhora da Saúde, deste dito couto, sita na freguesia de S. Pedro do Monte, que servem o presente ano, de lhe venderem (...) três medidas de pão, meado de milho-alvo e centeio, pão bom, limpo, (...) as quais impõem na bouça das Flores (...) e assim mais na casa em que vivem, que compraram a Ana de Sá, (...) é em preço e quantia de nove mil réis, forros, livres e isentos de sisa (...) a qual quantia receberam eles vendedores de Domingos Carvalho, tesoureiro da dita confraria (...)
Página inicial da escritura de 1684

A 30 de Março de 1685, foi novamente solicitada a presença do tabe­lião, agora em S. Pedro de Sá e em companhia do escrivão da Confraria, o pároco de Viatodos, padre Alves Dias da Cruz, a fim de «dar posse» das medidas declaradas na escritura do ano anterior.
Ao menos no século passado, esta casa — os livros referem-se repetidamente à «casa da Confraria» — era tida como de pouco interesse económico. Assim, em 1853, consegue-se «autorização do Excelentíssimo Conselho de Distrito» para proceder à sua venda. Por falta de compra­dores, ainda em 1859 não se tinha efectuado negócio. Em 1873 e anos seguintes, o tesoureiro continua a registar a recepção das três medidas; as mesmas medidas hão-de estar incluídas nos 225,849 litros de pão meado que a Confraria arrecadava nos primeiros anos de 1900.

Em 1684, teria já falecido o senhor de Fralães baptizado no dia da Assunção de 1607, Cristóvão Correia de Lacerda. Falecido sem deixar herdeiro, deu-se então a chamada «intrusão» na casa de um seu parente um pouco afastado.

[1] Quer-nos parecer que este sacerdote teria alguma relação familiar com D. Ana Figueira de Mendanha, esposa de António Correia de Lacerda, uma vez que F. Gaio, ao falar da mãe desta senhora, não só menciona alguns nomes com o apelido «da Guarda», mas até aí ocorre mais que uma vez o nome Tomé (tomo 24, p. 42).
[2] Num documento da segunda metade do século XVII, aparece em Viatodos, no casal do Monte (que ainda não era «da Feira»), um Manuel Antunes, com certeza aparentado com este Pedro Antunes.
[3] O padre Pedro de Freitas antepôs um índice a este livro. Depois dos habituais «títulos» dos baptizados, dos defuntos, dos casados e confirmados, vem o título «dos bens móveis desta igreja», «o dos costumes desta igreja», «o das missas de obrigação desta igreja» e «o dos estatutos da confraria do Sobsino». Lamentavelmente, estes estatutos já aí não constam. Constam porém vários termos de eleição de um mordomo que seria muito provavelmente o juiz da Sub sinu.

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