quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A República e as suas sequelas

Para o período que vai de 1900 a 1934, são os seguintes os livro (e não há documentos de outro género no seu «arquivo») que nos informam sobre a Confraria: dois «Livros de Actas», um que vinha de 1894 e termina em 1912 e outro que vai de 1912 a 1915; três «Livros de Contas», que contêm, no seu conjunto, a contabilidade da associação religiosa entre 1899 e 1910; um Livro de Inventário, de 1917, mas com acréscimo Posteriores; e um Livro dos Irmãos.
A contabilidade oficial dos «livros de contas» é de interesse reduzido; com certeza à margem dela, desenvolvia-se outra. Assim, em 1900, o tesoureiro António Gonçalves da Cunha, que apresenta uma receia de 127.390 réis e igual quantia para a despesa, pôde adquirir uma cruz de prata no valor de 121.000 réis, tendo, em 1892, já adquirido uma vara, também de prata, para o juiz, por 20.000 réis, e adquirindo ainda, em 1901, um sino, por 64.800 réis[1].
Sem ser uma confraria rica, a Confraria da Senhora da Saúde devia ser então uma confraria briosa, podendo apresentar, em dia de festa, uma procissão condignamente ornada. Havia até uns valiosos brincos à rainha e um colar de pérolas, com certeza para adorno da imagem.
A respeito dos «Livros das Actas», começam a despertar interesse em 1908. A catorze de Agosto desse ano, procedera-se, normalmente, à eleição da mesa. A 20/9, realizou esta uma sessão, com agenda desconhecida, pois foi inteiramente apagada a acta que então se lavrou. A 6/12, procede-se a uma «eleição extraordinária, decretada pelo Exce­lentíssimo Senhor Governador Civil, em alvará de vinte e seis de Novembro findo, publicado em edital do Excelentíssimo Administrador do Concelho». Foram então eleitos, para juiz, Aires Pereira da Silva Campos, de Monte de Fralães; para secretário, Joaquim Carvalho de Faria, de Silveiros para tesoureiro, António Joaquim Senra, de Monte de Fralães; e, para procurador, Domingos da Cosa, também de Monte de Fralães. Em 7/2/1909, porém, o administrador do concelho, Conde de Vilas-Boas, desloca-se a Monte de Fralães a fim de assistir a nova «eleição extraordinária da mesa que tem de servir até ao fim do presente ano económico, decretada pelo Excelentíssimo Governador Civil em alvará de um de Janeiro findo, publicado por edita do Excelentíssimo Senhor Administrador do Concelho de vinte e cinco do mesmo mês». Aires Pereira da Silva Campos enviou à mesa eleitoral «cinco protestos», mas a equipa de mesários que chefiava saiu vencida por uma margem não muito significativa de votos, sendo eleito, para juiz, António José de Araújo Miranda, de Silveiros; para secretário, Manuel José da Silveira, de Monte de Fralães; para tesoureiro, João de Araújo, também de Monte de Fralães; e para procurador, António Correia de Campos, de Silveiros.

A marquesa de Monfalim foi certamente uma devota de Nossa Senhora da Saúde. Consta que é este o seu túmulo.

Pode-se legitimamente perguntar pela razão da vinda a Monte de Fralães do administrador do concelho (presidente da câmara, diríamos hoje). Essa vinda tem a ver com o direito e, no caso, dever de jurisdição real, civil, sobre a Confraria; no fundo, contudo, estaria em causa travar o ímpeto republicano de Aires Pereira da Silva Campos, ou Aires do Rio, ímpeto que ainda haveria de dar que falar, como o atestam os mesmos «livros das actas» e também as actas da Junta de Paróquia. A partir de 1910, a luta personaliza-se: Aires do Rio contra Luís Vilares. Ironicamente, Aires do Rio vem a ser vencido numa célebre questão, em recurso decidido por Bernardino Machado a favor de Luís Vilares (recurso 15.340, publicado no «Diário do Governo», II Série, 24/6/1916).
Em 1912 e 1918, houve duas reformas dos estatutos. Em 1912, pre­sidia à Confraria Luís Vilares; em 1918, Aires do Rio.

Hoje são raras, mas há algumas décadas eram frequentes as «vigílias» que se dirigiam das freguesias das vizinhanças à igreja da Senhora da Saúde. Eram grupos de populares que vinham cantando em honra da Senhora. Nem sempre a sua devoção se exprimia do modo mais recomendável. Repare-se numa quadra que uma vez ouvimos cantar, onde o interesse supera a devoção:

Senhora da Saúde,
O caminho pedras tem;
Se não fizésseis milagres,
Aqui não viria ninguém.


Os ventos do anticlericalismo reinante, estas divisões no interior da irmandade, a pressão que de Viatodos se fez sentir no sentido de incorporar em si Monte de Fralães e as reacções desencontradas daí nascidas hão-de ter constituído embriões da decadência que começou a abalar a Confraria.
Em 1920, por iniciativa de Aires do Rio, a Confraria pôs ao dispor da Junta de Paróquia a quantia de 800.000 réis para a abertura do troço de estrada que liga a igreja à estrada nacional.
Na base da imagem do Sagrado Coração de Jesus que se venera no altar colateral do lado oposto ao da Senhora da Saúde lê-se: «Luís Vilares. Pertence à Quinta de Fralães.» Luís de Andrade Vilares foi, durante alguns anos, dono desta quinta. Testemunho da sua devoção à Senhora da Saúde foi «um manto novo da Senhora, obra de grande valor, todo bordado a ouro, e todos os seus respectivos preparos para vestir a Senhora nos dias da festa e mais cinco bandeiras novas com os respectivos bordões que foram oferecidos por Luís de Andrade Vilares, do Porto, bem como uma casula e um véu de ombros, também obra de arte e valor». Estas palavras são de um registo de inventário feito por Aires do Rio em 1926.
Em 1932, o número de irmãos ainda se cifrava em 739; 30 anos antes eram 1287.

Os caixões das promessas
Em tempos recuados, as confrarias dispunham de um caixão para levar os corpos sepultar. Derivada com certeza desta tradição, houve em Monte de Fralães uma devoção estranha: as pessoas faziam a promessa de se passearem num caixão pelo terreiro.
Há uns trinta anos, o pároco de então acabou com esta prática. Era costume é conhecido noutros lugares.


De 1934 à actualidade

Fruto do entendimento mais realista entre o Estado e a Igreja, em 1934 são aprovados, «por Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Arcebispo Primaz», novos Estatutos (os anteriores haviam sido aprovados pelo Governador Civil). No mesmo ano, fez-se novo inventário.
De entre 1936 e 1940, conserva-se um interessante Livro de Contas. Durante estes anos, é «presidente» da mesa o pároco padre José Pedro da Silva Rodrigues. Ao que parece seria um homem lúcido e enérgico, capaz de se colocar acima das questiúnculas que corroíam a irmandade. Em 1936, fez um arranjo completo da igreja, em que gastou quase 5.000$00; no terreiro gastou cerca de 1 500$00; num palanque, 300$00; em reparações na estrada, também 300$00. Em 1937, com os muros do adro, escadório e canos do terreiro, foram gastos 2.200$00. Em 1938, despendeu-se em «desaterro do adro», 600$00; com «quebrar os penedos do adro», 700$00; com um «palanque para a música em pedra e cimento», 992$00; em «castanheiros e oliveiras para o terreiro», 126$00. Em 1939, são ainda gastos 1.500$00 nos muros do adro. Em 1940, com a «casa dos milagres» são despendidos 2.761$09.
Em cinco anos, a igreja, adro e terreiro ganharam uma imagem nova — aliás seria ainda quase gótica a do adro e do terreiro, com penedos, ladeiras íngremes e até um rego de água.
Estes investimentos, como outros já assinalados, feitos em tempos economicamente tão difíceis, tiveram o seu lado negativo, cremos até que muito grave. No fundo, gastou-se, provavelmente, não rendimento da Confraria mas o seu pecúlio, o dinheiro dos legados, o que era ilegal.
Nos anos mais recentes, a escrituração tem sido muito descurada, pelo que quase não há base escrita para uma recolha séria de informações. Até entrados os anos sessenta, Monte de Fralães e com ela a direcção da Confraria viveu em permanente divisão: um grupo mais salazarista e tradicionalista, outro mais «republicano» e oposicionista. Deste despique saíram algumas obras, como o fontanário, os actuais palanques, os muros do terreiro, o carrilhão e o relógio, etc.
Que saibamos a Confraria enquanto associação religiosa propriamente dita tem padecido de evidente falta de iniciativa.
Nos anos sessenta, aproveitando a tão antiga (já lá vão quase quatro séculos) e tão largamente enraizada devoção à Senhora da Saúde, surgiu a peregrinação anual das freguesias mais próximas ao santuário de Monte de Fralães, num domingo de finais de Primavera ou princípios de Verão.
Imagem de Nossa Senhora da Saúde, transportada no seu andor, em procissão.
A Festa de Nossa da Senhora da Saúde e a Beata Alexandrina
Numa carta ao P.e Mariano Pinho, um dia a Beata Alexandrina afirma que Jesus está triste com a Festa de Nossa Senhora da Saúde. Veja-se informação mais desenvolvida aqui.
[1] Por esta altura, haverá muitos mesários de fora de Monte de Fralães, o que consideramos muito louvável. Deste António Gonçalves da Cunha, porém, por um dos livros das actas da Junta de Paróquia sabemos que era de Monte de Fralães, provavelmente da casa da Granja, e que foi, durante vários anos, presidente dessa Junta.

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